Não desista.

No final de 2016, eu estava de volta a Fortaleza — havia passado o ano de 2015-2016 na Bélgica, com uma bolsa de pós-doutorado do Ciência sem Fronteiras — e passei por um dos momentos mais difíceis da minha vida adulta. É difícil colocar em palavras tudo o que passei e tudo que aconteceu, e provavelmente esse relato é uma interpretação de como tudo realmente ocorreu. Mas me ponho sob o risco de deixar passar alguma parte da história porque acredito que o ponto onde quero chegar é mais importante.

A minha volta ao Brasil foi bastante conturbada. Eu já havia morado fora por quase 3 anos, e voltar para minha cidade natal, cheia de recordações e de experiências, foi também uma nova experiência. Além disso, eu não tinha onde morar, e tive que voltar a morar com minha família. Quem já morou só por um tempo sabe como isso pode ser algo, digamos, frustrante. Ademais, minha relação com minha mãe nunca foi das melhores (recentemente eu percebo que a relação melhorou exponencialmente, e eu atribuo isso em parte à minha própria maturidade para lidar com problemas pessoais e traumas do passado, mas isso é assunto para outro post).

Após 3 meses tentando me adaptar à minha “nova” rotina, comecei a perceber que eu estava cada vez mais isolado do mundo — da família, dos amigos, dos relacionamentos de forma geral. Sentia que estava desenvolvendo um estilo de vida que me colocava nessa situação: eu não saia de casa, eu recusava convites pra sair, e diversas vezes faltei o trabalho (corri sérios riscos nessa época, pois perdi oportunidades profissionais de avançar dentro da minha carreira, mas acabei estagnando e decepcionando algumas pessoas ao longo do caminho — principalmente eu mesmo). Nesse período, tive minhas primeiras crises de ansiedade e um episódio em especial me marcou muito: eu estava voltando para casa de uma aula de ioga (!!!) quando tive um ataque de pânico. Sentia que iria passar mal a qualquer momento e que iria desmaiar, e a única solução foi ir direto a um hospital. É uma sensação muito ruim, e não vou entrar muito em detalhes, pois até escrever sobre isso me deixa um pouco balançado. Nessa época eu estava bastante infeliz com o meu emprego e com a vida de forma geral, e somado a outros fatores, o copo encheu e transbordou. No hospital, o médico tentou me tranquilizar e me receitou um ansiolítico para que eu tomasse uma vez por dia, durante 1 mês. Disse que isso era normal, que muitas pessoas da minha idade passavam por isso, e que eu ficasse tranquilo que tudo iria ficar bem. Ele também me recomendou fazer atividades relaxantes, como nadar, fazer atividade física e meditar.

Eu já havia praticado ioga entre 2014 e 2015, mas nunca com um “objetivo” — eu fazia porque achava legal e aliviava o “estresse” do dia a dia. Comecei então a ler sobre meditação. Na ioga, existe uma união muito forte (e indispensável) do exercício físico (corpo) com a meditação (mente), então de certa forma eu já sabia um pouco como meditar. Mas a prática separada de meditação foi algo muito importante que eu aprendi desde essa época. Tudo isso que eu relatei foi pra contar um episódio que, com certeza, mudou a minha relação com o mundo — metafísico e físico. As minhas práticas de meditação eram sempre a noite, pouco antes de me deitar pra dormir. Eu tomava o remédio, entrava em posição de semi-lótus, e meditava. Em geral, as meditações duram em torno de 10-15 minutos. Em um dia muito específico, eu estava me sentindo mentalmente esgotado e praticamente desesperançoso com tudo — em retrospectiva, eu acho que eu havia atingido um estado depressivo muito profundo (talvez o pior de todos até hoje). Já próximo do fim da meditação, ao abrir os olhos, eu não pude conter as lágrimas. Me vi completamente fragilizado, como nunca havia experimentado antes. Nesse momento, recorri, com palavras, à “qualquer entidade, coisa, pessoa, Deus, Buda, Universo, por favor me envia um sinal. Não aguento mais esse sofrimento e esse peso dentro de mim”. Pensei, putz, eu acabei de meditar, por quê estou me sentindo assim?

Eu nunca meditava escutando música, mas nesse dia eu havia colocado uma playlist aleatória no celular, que, ao término da minha meditação, tocava uma música intitulada “Don’t give up” (“Não desista”). Voltei a cair em lágrimas e dormi como nunca havia dormido antes. Na psicologia, os especialistas chamam essas experiências de “ressignificação”. Estatisticamente, não é tão improvável que isso foi apenas uma coincidência. Parte de mim ainda pensa isso. Mas tem uma outra parte de mim que mudou profundamente com essa experiência, e sinceramente, me mudou de uma forma que eu nunca esperei que mudaria e que, definitivamente, não tem volta.

Alguns adendos sobre tudo isso: (1) hoje eu me sinto muito melhor, as crises diminuíram consideravelmente e eu não estou mais precisando de medicação, ainda bem; (2) as coisas melhoraram pois eu arrumei um emprego novo — um pouco diferente da minha área, o que me proporcionou um senso de “começar de novo” e foi (e ainda é) super importante no processo de recuperação. Sai da casa da minha família, e tenho meu próprio espaço, que acredito também ter contribuído para a minha melhora; (3) apesar de tudo, eu hoje compreendo que as crises fazem parte de mim e que provavelmente nunca irão desaparecer completamente. A diferença é que eu estou aprendendo, num exercício diário (e custoso), a conviver com minhas emoções; (4) esse post é apenas um relato de uma experiência e não uma *opinião imutável* de como vejo o mundo. Até porque acredito que estamos sempre errados, e quando passamos por algum amadurecimento, apenas ficamos “menos errados do que antes”; (5) nunca fui religioso e/ou espiritualizado, sempre fui muito questionador, principalmente de dogmas religiosos da Igreja Católica (pecado, culpa, a hipocrisia da Igreja como instituição política/econômica, etc).

Raízes

Ontem eu vi “A Walk” [o link vídeo completo tá ali no final], um filme de 1990 do cineasta Jonas Mekas. Em algum momento do filme, ele fala sobre como nunca encontramos nossas raízes em outro lugar a não ser naquele lugar onde nascemos. Jonas é originalmente da Lituânia, e como um refugiado da guerra (se não me engano, ele até ficou preso em campo de concentração), foi morar em Nova York e fez praticamente a vida dele lá. Mas mesmo assim, ainda hoje, aos 95 anos de idade, ele diz que não consegue encontrar suas raízes em NY; apenas na Lituânia é onde ele “existe” verdadeiramente.

Hoje vi um comentário [no Facebook] sobre o que fazer caso aquele-candidato-que-não-falamos-o-nome seja eleito. Muitas respostas incluíam sair do país, numa tentativa de melhorar de vida; as motivações devem ser diversas: melhor qualidade de vida, menos violência, etc. Acho que é interessante sair da sua terra natal, até pra criar perspectiva (conhecer outros pontos de vistas sobre a vida, o mundo e tudo mais), mas isso deveria — deveria — ser feito por vontade própria e não por esse tipo de circunstâncias políticas que estamos enfrentando aqui no Brasil. É muito triste ter que se tornar um exilado à força.

Eu já morei fora um tempo, e uma parte de mim realmente nunca quis deixar essa terra, especialmente Fortaleza. Eu tenho minhas raízes aqui, e pode até ser idealista falar isso, mas não há lugar como a sua própria casa.

 

Tacto

Recentemente eu estive em contato com o Caio Paiva, um fotógrafo de Fortaleza morando em SP, e nós trocamos umas ideias massa sobre fotografia e é com muita honra que eu tive 4 fotos de minha autoria publicadas na edição #2 do zine Tacto. A edição ficou linda e pode ser conferida aqui (páginas 40-41/42-43):

https://bit.ly/2uD35i2

Agradeço ao Caio pelo contato e espero que possamos colaborar em breve! :-)

Primeiro post e redes sociais

Oi :-)

Esse é meu primeiro post nesse blog. Eu nunca tive um blog, pra falar a verdade, mas sempre tive vontade de um dia ter um. Acho que agora chegou a hora, apesar de não conhecer praticamente ninguém que ainda mantenha um blog de forma consistente (tanto leitores quanto escritores). Houve uma migração pesada pra outras mídias nos últimos o quê, 5 anos, de consumo mais rápido (tipo YouTube, Netflix e afins) e com a ascensão das redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter, etc) o conteúdo ficou cada vez mais “enlatado” pra ser consumido cada vez mais rápido.

Escrevo esse post enquanto tento imaginar uma solução pra um impasse que me aflige nesse momento: sair ou não das redes sociais? Na verdade, a única conta ativa em rede social que eu mantenho é no Instagram. Deixa eu contar como começou minha história. Em 2012 eu morava em Fortaleza e tava terminando o primeiro ano do doutorado em Física na UFC. Recebi um convite pra fazer um estágio-sanduíche de 1 ano na Bélgica, numa cidade chamada Antuérpia. O estágio funciona assim: você faz 1 ano fora, volta ao país de origem e termina o que ainda falta. No meu caso, foi 1 ano no Brasil, 1 ano na Antuérpia e mais 2 anos no Brasil novamente.

Como eu tava dizendo, eu recebi o convite e aceitei de cara. Eu sempre tinha essa ideia de ir embora, de morar fora pra ter outras/novas experiências de vida e viajar por alguns lugares legais por aí. O curioso é que eu sai da casa da minha mãe aos 27 anos de idade (considerado uma idade avançada pra sair da casa dos pais) e a primeira vez que fui morar sozinho, já foi pra ir morar em outro continente, num país que tem 3 línguas oficiais (holandês, francês e alemão) e nenhuma delas é o inglês. Aceitei o desafio, arrumei minhas malas (e um monte de burocracia, acredite, a Bélgica é um país muito mais burocrático que o Brasil) e fui.

Quando eu cheguei na Bélgica, em 2012, eu tinha um celular meio ruim, que nem acessava internet direito, mas que dava pra usar o que eu precisava na época: Facebook e WhatsApp (que diga-se de passagem, ainda era uma criança nessa época e bem pouco usado). A maioria dos meus amigos usavam o Messenger do Facebook pra se comunicar e esses dois apps eram suficientes pra mim. Na verdade, eu usava muito pouco meu celular pra me comunicar. Além de não ter pra quem ligar na cidade nova, eu basicamente trabalhava o dia todo no computador, então usava e-mail (para coisas de trabalho), e o extinto GTalk (que agora virou Hangouts) em uma interface dentro do próprio Gmail.

Uma outra ferramenta que eu usava bastante era a câmera do meu celular. Eu havia ido sem nenhum equipamento fotográfico (não necessariamente precisava ser profissional, mas nem uma câmera point-and-shoot fuleira eu tinha). Eu precisava [queria] documentar a cidade de alguma forma pra poder mostrar aos meus amigos e familiares como era por lá, então o celular caiu como uma luva pra essa tarefa. Quanto mais eu fotografava, mais eu pegava gosto pela parada e aprendia no dia-a-dia sobre composição, luz e edição (na verdade eu explorava muito aqueles filtros bem bregas das primeiras versões do Instagram). Com o YouTube à disposição, o aprendizado inicial foi até rápido, e alguns meses depois de começar a tirar minhas primeiras fotos, eu descobri o Instagram. O conceito do app era (é) bem simples: tire uma foto, suba a foto na sua linha do tempo (feed) e deixe as pessoas (em geral, amigos no meu caso) curtirem (ou não), comentarem (ou não) a sua foto.

Pulando pra 2018, e pro meu impasse, acredito que nem preciso descrever o que o Instagram se tornou hoje: uma mega plataforma pra autopromoção exagerada. Sinto que o buraco é bem mais embaixo do que eu estou disposto a discutir nesse texto, mas o meu principal sentimento é (e pra mim é até difícil confessar isso) o de… vício. Me sinto muito compelido a olhar as atualizações a todo instante. Quantas vezes pegamos o celular pra abrir algum app, sabendo que não vai ter nada novo pois verificamos há 60 segundos atrás? Já conversei com algumas pessoas sobre isso e o sentimento parece ser (quase) unânime: nós somos viciados em likes.

Isso faz sentido, claro que gostamos de ser queridos, de ter nosso trabalho reconhecido, faz parte da natureza humana se sentir acolhido por outros membros da espécie, é até um instinto de sobrevivência. Mas o que as redes sociais têm feito nos últimos tempos tem sido massacrante. E se isso afeta pessoas adultas conscientes, cujo caráter já estão formados, imagina o que tá fazendo com as gerações mais novas, com o pessoal de 10, 11, 12 anos que acabam tendo a percepção (errada) de que eles só serão valorizados/validados se tiverem uma conta com muito likes, muitos comentários e um feed lindo e perfeito, onde todo mundo é feliz. Isso cria a falsa sensação de que devemos ser felizes o tempo inteiro, a todo custo. Quais os males que essa necessidade por exposição vai causar no futuro a gente ainda não sabe. Os nossos cérebros (e especialmente os das pessoas mais jovens) vão sendo moldados quimicamente por inputs externos, que, como eu falei, estão cada vez mais longe da realidade.

Eu entendo que o problema não tá nas redes sociais em si, mas como nós estamos utilizando essas ferramentas. A internet (e as redes sociais inseridas dentro desse contexto) têm sim aspectos importantes: facilitou a comunicação entre as pessoas (WhatsApp e afins) e abriu portas para o compartilhamento do conhecimento (Wikipedia e afins).

Como fotógrafo, meu impasse ainda continua, e eu realmente não sei se devo parar de usar ou não o Instagram. Eu sinto que há pontos positivos em ter uma conta: expor e divulgar o trabalho, conhecer pessoas de outros cantos do mundo que possuem o mesmo interesse fotográfico que o seu e criar um networking. Mas os pontos negativos que eu citei no texto (e no meu caso específico, a compulsão por estar sempre checando o app e o celular) talvez sejam fortes suficientes pra me fazer desistir (pelo menos por um tempo) do Instagram e manter meu trabalho fotográfico exposto apenas nesse site. Pode ser que assim eu coloque meu foco no que realmente gosto de fazer: fotografar.

Antigamente o mote era “sai da TV e vai ler um livro”. Acho que ele precisa de um update (ehe) pros tempos atuais.

[edit] Recebi alguns feedbacks sobre esse post, e o gostaria de compartilhar um texto que, coincidentemente, saiu ontem 30/01/2018 no The Atlantic, onde o autor discute (de forma bem mais articulada do que aqui) o papel das redes sociais nos modelos de mercado atuais. O texto tá aqui, e em tradução livre o título é “Todos os seguidores são falsos seguidores”.